Genocídio Adventista em Angola: Filho de Kalupeteka afirma que houve mais de 700 mortos no Monte Sumi

0,,18580379_403,00

Fernando Kalupeteka, filho do líder da seita Adventista A Luz do Mundo (esquerda) falou com o jornalista William Tonet. Cliqe sobre o “play” na extremidade esquerda e ouçao áudio.

As vítimas da violência policial terão sido sobretudo mulheres, algumas grávidas, e crianças indefesas, afirma Fernando Kalupeteka, filho do líder da seita “Adventista A Luz do Mundo”, que as autoridades angolanas tinham proibido.

Três meses depois, continua por esclarecer a morte de várias pessoas seguidoras do pastor Kalupeteka, da seita “A Luz do Mundo”, na província angolana do Huambo. As informações sobre o real número de mortos divergem, consoante quem as emite. O governo fala em nove polícias mortos e 13 vítimas civis. Por sua vez, a oposição chegou a falar em mais de mil vítimas de um hediondo massacre que o governo quer encobrir e esconder aos olhos do mundo.

“700 pessoas morreram porquê?”

Agora surge um depoimento de uma testemunha ocular, a declaração de Fernando Kalupeteka, um dos filhos do pastor José Kalupeteka, que o jornalista William Tonet conseguiu localizar, algures no mato, na região de Caála, no Huambo. A DW teve acesso às declarações, em que Fernando Kalupeteka fala de mais de 700 mortos: “Ali no Sumi morreu muita gente. 700 pessoas morreram no Sumi.” Fernando Kalupeteka afirma que presenciou tudo e que, por isso, estaria em condições de falar em primeira mão: “Eu estava no Sumi. Vi a tropa a massacrar as mulheres grávidas, com as suas barrigas. Eu vi com a minha vista. Eu só quero perguntar: 700 pessoas que morreram no Sumi, morreram porquê?”

0,,18435220_403,00

José Kalupeteka tinha milhares de seguidores na sua igreja Adventista A Luz do Mundo

As mortes deram-se na sequência de confrontos entre a Polícia Nacional de Angola e os seguidores da seita religiosa “A Luz do Mundo”, liderada por José Kalupeteka, no município de Caála e no Monte Sumi, na província do Huambo, em meados de abril. Recorde-se que a seita que tinha milhares de seguidores era acusada pelas autoridades angolanas de desrespeito pelas leis do país, nomeadamente, de proibir crianças de frequentar escolas e tomar vacinas. O conflito que envolveu o próprio governador do Huambo, Kundi Paihama, alastrou-se e culminou em detenções, confrontos físicos entre seguidores e polícias e mesmo mortes. Quantas pessoas terão perdido a vida? Vários observadores falam em mais de mil vítimas. Mas as autoridades de Angola continuam a dizer que teriam morrido apenas 9 polícias e 13 civis.

Não foi apresentado um único cadáver de um único civil

0,,18106089_403,00

William Tonet, diretor do jornal Folha 8, conseguiu localizar e entrevistar o filho de José Kalupeteka

O jornalista angolano William Tonet, diretor do “Folha 8, semanário crítico ao regime angolano, não acredita na versão das autoridades: “O caricato é que nem os 13 corpos o governo consegue apresentar.” William Tonet recorda que em Huambo houve um funeral, em que foram enterrados os 9 polícias, mas três meses depois ainda não foram mostrados os corpos dos membros da seita.”

Note-se que a estratégia do governo angolano de abafar o assunto tem surtido algum efeito, segundo admitem alguns observadores. É praticamente impossível aceder ao local, que as forças transformaram numa zona altamente militarizada, segundo afirma William Tonet: “Tentei contactar legalmente as autoridades para vêr se podíamos ir ao Monte Sumi, mas caricatamente transformaram aquilo numa área militar. Isso inviabiliza que se possa ir lá para apurar a verdade”. O jornalista procurou as aldeias da região durante cinco dias, mas não encontrou nenhuma aldeia que tenha acolhido os elementos da seita: “Só depois de muito tempo é que encontrámos alguém que nos indicou onde poderíamos localizar os filhos do Kalupeteka”, afirma William Tonet em entrevista à DW.

Muitos seguidores da seita desapareceram

F8 1

Fernando é um dos filhos do líder da seita. Por enquanto conseguiu escapar à detenção

Note-se que o líder da seita, a sua esposa e vários filhos estão presos, em sítio incerto, e impedidos de serem contactados por organizações de direitos humanos e advogados. As autoridades angolanas afirmam que os seguidores da seita teriam sido levados para um acampamento, que – segundo William Tonet – “simplesmente não existe”. O jornalista, depois de muita insistência, conseguiu localizar alguns dos filhos de Kalupeteka, que ainda não foram presos, tendo-se refugiado no mato, registando o testemundo de Fernando Kalupeka, já adolescente, que afirma ter medo de ser preso, torturado ou mesmo morto, pela polícia angolana: “Por isso ando no mato. Prefiro ficar aqui com os mosquitos a morder o meu corpo, com fome. Eu prefiro assim.”

Testemunho credível, ignorado pelo governo e pelo mundo

Um depoimento considerado credível pelo jornalista, mas que as autoridades angolanas não querem ouvir, segundo William Tonet. “É o primeiro depoimento que vem dar consistência às imagens, também em nossa posse, da chacina cometida pelas tropas, o que alavanca a tese de ter havido, na realidade, um genocídio. Não foi apenas um ajuste de contas pela morte de 9 polícias. Foi mesmo uma verdadeira chacina, un autêntico genocídio.”

Quem deverá ser responsabilizado pelos acontecimentos? Para William Tonet, que também é jurista, a questão está clara: “Do ponto de vista imediato, quem estava no terreno, quem deu orientações à polícia para ir lá repor a autoridade, foi o governador provincial do Huambo, Kundi Paihama. Mas do ponto de vista constitucional a responsabilidade do genocídio incumbe ao Presidente da Repúbica, porque ele é o titular do poder executivo.”

ONU quer investigação independente

Em Maio, o Escritório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (ACNUDH), pediu que fosse nomeada uma comissão independente para investigar os confrontos na Monte do Sumi.

Segundo o organismo da ONU, há “factos por esclarecer” e “grandes diferenças no número de vítimas”. O pedido de inquérito caiu mal ao Governo angolano, que afirmou que as declarações da ONU “não são sustentadas por quaisquer provas” e que foram “amparadas por falsas declarações prestadas por elementos tendenciosos e absolutamente irresponsáveis, com a intenção de difamar” o país.

Um grave massacre. Uma chacina brutal. Alguns dizem mesmo “genocídio”. São gravíssimas as acusações lançadas por políticos da oposição angolana, por defensores dos direitos humanos e também por jornalistas independentes. O depoimento de Fernando Kalupeteka é mais uma pedra que poderá ajudar a compor o mosaico.

0,,18414593_403,00

São Pedro de Sumé, província do Huambo, não fica longe da montanha do Sumi

Fonte: http://www.dw.com/pt/filho-de-kalupeteka-afirma-houve-mais-de-700-mortos-no-monte-sumi/a-18581699

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *