Pastor adventista — Presidente da Associação Norte — de Angola é acusado de forjar o próprio rapto

Pastor adventista de Angola é acusado de forjar o próprio rapto

Os investigadores que conduzem o processo detiveram dois indivíduos que terão participado do crime e a viatura, de marca Toyota Tundra, cinzenta, usada no momento do pagamento do resgate. A suposta vítima, pastor Daniel Cem, refuta as acusações que pesam sobre si.

Presidente da Associação Norte da Igreja Adventista do 7º Dia, pastor Daniel Sem, está a ser acusado, por alguns dos fiéis, de ter simulado o seu próprio rapto para, supostamente, encobrir o descaminho de 100 milhões de Kwanzas da igreja. Esta soma monetária seria, segundo apurou OPAÍS, destinada ao arranque das obras de construção de um instituto superior da referida congregação religiosa em Luanda.

O alegado rapto ocorreu no dia 19 de Novembro último, quando o líder religioso chegava à sua residência, sita no Golfo II, saindo do serviço, e terá sido rendido pelos presumíveis marginais no momento em que abria o portão para fazer entrar a viatura.

De seguida foi posto no porta-bagagem do veículo e levado para o cativeiro em que permaneceu até se ter pago o resgate. De acordo com uma carta em posse dos quadros dos Serviços de Investigação Criminal (SIC) que conduzem o processo, cujo autor se apresenta como sendo um dos indivíduos contratados por Daniel Sem exclusivamente com esse propósito, o alegado crime teve como pressuposto impedir a realização de eleições do corpo directivo da referida igreja.

Pastor adventista de Angola é acusado de forjar o próprio rapto

No entender do queixoso, que não se identificou, o actual líder seria derrotado no pleito eleitoral que estava marcado para Dezembro, por ter pouca popularidade no seio dos votantes. Com isso, o vencedor descobriria que o dinheiro da associação teria sido aplicado nas obras de ampliação do Instituto Superior Politécnico Internacional de Angola, (ISIA), de que a vítima é um dos sócios.

Diz, no documento, que a suposta vítima estava convicta de que o seu regresso aumentaria a sua popularidade entre os votantes e, com isso, estaria assegurada a sua permanência no cargo.

Após praticarem tal acção, os raptores usaram o telemóvel do pastor para contactar a sua esposa e exigiram o pagamento de 100 milhões de Kwanzas, em troca da sua libertação. O que veio a acontecer, dias depois, mas com o pagamento de apenas 30 milhões de Kwanzas. Dias depois, os investigadores detiveram dois indivíduos que supostamente estão envolvidos no rapto, entre eles um dos secretários do ISIA que é parente de um dos responsáveis da mais alta estrutura da Associação Norte da Igreja Adventista do 7º Dia.

Daniel Cem conta a sua versão

Em declarações a OPAÍS, ontem, Daniel Sem refutou as acusações que pesam sobre si, tendo alegado que se tivesse cometido tal crime estaria preso, não em liberdade e a colaborar com a Polícia na descoberta dos verdadeiros autores do crime.

“No momento em que me raptaram, um deles disse: não matem o pastor”, recordou ao justificar a sua tese de que estava a ser vítima de intrigas. Esclareceu que, assim que se aperceberem do que se estava a passar, os seus familiares denunciaram o crime ao SIC, tendo resultado na instauração de um processo que corre os seus trâmites legais.

Quanto aos valores monetários que teria surripiado, negou redondamente. Disse que se tivesse cometido tal crime os seus companheiros na liderança da Associação Norte da Igreja Adventista do 7º Dia o teriam denunciado, mas nada disso aconteceu por se tratar de uma denúncia falsa.

Negou a informação de que os seus algozes o terão alojado temporariamente, enquanto negociavam o resgate, no interior de uma propriedade sua. “Eles ligavam todas as noites para a minha mulher com o propósito de negociarem o resgate. Estavam a exigir 100 milhões de Kwanzas, mas o meu irmão manifestou que só podia pagar 30 milhões de Kwanzas”, disse.

Daniel Sem esclareceu que o resgate foi efectuado no mesmo local onde ocorreu o crime, nas imediações das Bombas do Golfo II, na presença de investigadores que estavam camuflados e só não intervieram para salvaguardar a sua integridade física e da sua esposa.

Ela foi a pessoa que entregou o dinheiro em troca da suposta vítima e havia sido ameaçada de morte caso estivesse acompanhada por polícias no acto. Por seu turno, Henrique Kissole, irmão do pastor, apresentou- se ainda como um dos donos do colégio Yara Jandira.

De forma a ilustrar a integridade do seu irmão, contou que antes de ele se tornar no empresário bemsucedido que é hoje, o seu irmão já o era, mas abandonou o mundo dos negócios quando decidiu tornar-se pastor.

Em reconhecimento disso, não hesitou em torná- lo sócio das suas empresas. Explicou que as suas empresas gozam de boa saúde financeira e que alguns dos bancos comerciais andam atrás deles com pedidos para fazerem aplicações financeiras. Além do mais, se precisassem de dinheiro conseguiriam facilmente empréstimos na banca, em função do prestígio que têm.

Intrigas religiosas podem estar na base

A família do pastor Daniel Sem acredita que ele está a ser vítima de cabala para o afastar da liderança da igreja.

Minutos depois de a nossa equipa de reportagem ter entrevistado o pastor Daniel Sem, o seu irmão Henrique Carlos Kissole, contactounos, via telefónica, com o propósito de esclarecer alguns aspectos que considerou fundamental.

Supôs que o seu irmão está a ser vítima de intriga por parte dos seus superiores na igreja por “fazer- lhe sombra”, visto que é formado em teologia e as suas habilidades o levarão, a qualquer altura, a atingir o cadeirão máximo na União Noroeste da Igreja Adventista do 7º Dia.

No seu entender, o autor da carta fê-la para afastar o pastor Daniel Sem do cargo, porque tudo indicava que seria reconduzido para mais um mandato. Não por influência do sequestro, mas porque as pessoas confiam no seu trabalho.

Esclareceu que antes de ter pago os valores exigidos em troca do seu irmão, reuniu-se com o presidente da União Noroeste desta igreja simplesmente com o propósito de o pôr a par do que estava a acontecer e não para pedir dinheiro.

Disse ter sido a família da suposta vítima que apresentou a carta denúncia ao SIC para que constasse no processo. E, por outro lado, que não tem dúvidas de que o se autor esteja por detrás do crime.

“Ele escreveu esta carta e está a distribuir em certos círculos da igreja e meios de comunicação social, atribuindo a autoria do crime ao meu irmão para desviar a atenção da sociedade sobre o que realmente aconteceu”, frisou. Desabafou que o seu irmão mais velho não tem necessidade de aplicar os supostos 100 milhões de Kwanzas da Igreja do 7º Dia nas obras de ampliação das instalações do ISIA ou surripiálo para impedir a construção um instituto desta congregação, como diz o denunciante na carta.

Fonte: http://opais.co.ao/pastor-simula-proprio-rapto/

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