Kalupeteka, um fenômeno religioso, que mexe com o poder em Angola

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Por Adriano Adão

Sob forte segurança policial, Huambo começou a assistir ao julgamento de Kalupeteka, o líder da seita ‘A luz do Mundo’. Nas acusações do Ministério Público, constam o homicídio e exercício ilegal de religião. A oposição exige “transparência no processo” e apelou ao “não envolvimento” do poder político. O MPLA alerta que os partidos “não devem interferir” na justiça.

O julgamento de um dos casos judiciais mais mediáticos, conhecido como ‘Caso Kalupeteka’, teve início, há duas semanas, no Huambo. O suposto massacre que envolveu agentes da polícia e fiéis pertencentes à seita ‘A luz do Mundo’, cujo principal líder é Julino Kalupeteka, provocou várias vítimas e a destruição completa de uma aldeia no Monte Sume.

Devido às denúncias de violação de direitos humanos e à falta de esclarecimentos sobre as atrocidades que ocorreram naquela região, a Organização das Nações Unidas (ONU) pediu ao Governo para criar uma comissão independente de investigação.
Por seu lado, a oposição continua a culpar o Governo por não ter criado as condições de segurança para os fiéis daquela seita.

O deputado da CASA-CE Manuel Fernandes apelou às autoridades a fazer a justiça, “sem interferência” dos órgãos centrais. “Kalupeteka não é aquele monstro que se tentou propalar nos órgãos de comunicação social.”

De acordo com os dados da CASA-CE, recolhidos no Monte Sume, estavam com Kalupeteka, na altura em que ocorreu os incidentes, cerca de dois mil fiéis. “Encontrámos uma aldeia organizada e as pessoas disseram que houve uma agressão por parte das autoridades policiais e os fiéis responderam com os meios que tinham. Houve também o envolvimento de material bélico.”

As autoridades garantiram que, durante os confrontos, apenas morreram nove polícias e cerca de 20 civis. Ainda assim, relatos de assassinatos de dezenas de crianças e jovens foram colocados nas redes sociais, bem como a existência de búnqueres e outros meios de comunicação, mas ainda não foram provados. O Bloco Democrático (BD) foi também uma das forças políticas que criticou as autoridades por “não protegerem” os correligionários de Kalupeteka. O secretário-geral, João Baruba, afirmou, ao NG, que houve um “massacre”. “Acreditamos que, durante este julgamento, também serão responsabilizados os autores do Governo que provocaram estas matanças.”

A UNITA também pediu que se “faça justiça independente”. De acordo com Adalberto da Costa Júnior, o caso é um dos “mais graves” que ocorreu no país, desde o fim da guerra. “O meu grupo parlamentar chegou ao Huambo, uma semana depois, tivemos com as responsáveis da província, mas foi impedido e ameaçado de risco de vida se visitasse o local”, acusa.

Pelo MPLA, João Pinto defendeu que os tribunais “funcionam e a justiça é transparente”. De acordo com o deputado o grupo parlamentar do MPLA não visitou o Monte Sume, atendendo ao “princípio da separação dos poderes.” E adiantou que a oposição foi ao local para procurar “desacreditar as instituições e criar um ambiente de crispação”. “Os partidos não podem interferir em matérias de justiça e eles nem falam do comandante da polícia que foi morto”. “Vamos esperar que os tribunais decidam e quem não estiver de acordo deverá recorrer aos tribunais superiores,” concluiu.

“Fenómeno” religioso

José Julino Kalupeteka nasceu no Huambo. Entre 1992 e 1993, tornou-se num destacado corista da igreja dos Adventistas do Sétimo Dia. De 1994 a 1995, realiza um curso bíblico na mesma igreja e passa a ser o responsável máximo da juventude daquela igreja. Em 2001, é afastado e retirado da igreja por suposta indisciplina, ao mesmo tempo que, segundo os seus seguidores, começavam a persegui-lo, o que o levou a fundar, em 2007, a ‘Igreja dos Adventistas do Sétimo Dia, A Luz do Mundo’.

Em 2013 e 2014, as autoridades fazem várias acusações a Kalupeteka, entre as quais, o incitamento aos fiéis para não participarem do processo eleitoral, no Censo Geral da População e Habitação e na campanha de vacinação de crianças e para não frequentarem as escolas. Detido em Abril de 2015, foi colocado numa prisão de alta segurança e é acusado de crime de homicídio e exercício ilegal de religião.

Fonte: http://novagazeta.co.ao/?p=10889

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